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Edição 23 · Análise · Outubro 2026

Executive Technology Review

por Felipe Avila

E

m meados de outubro, o Morgan Stanley estimou que as big techs e as novas empresas de nuvem vão investir cerca de US$ 1,6 trilhão em inteligência artificial em 2027. O dinheiro sai do caixa delas antes de voltar como receita, e o caixa livre dessas empresas deve ficar negativo até 2027.

O mercado aceita, por enquanto, porque elas mostram a conta do retorno. A empresa que compra a IA delas ainda não faz a sua.

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A régua das big techs

Em setembro, Michael Mauboussin, estrategista da Counterpoint Global, do Morgan Stanley, publicou a conta que os investidores estão fazendo. Ela mede quanto rende cada dólar novo investido, além do que o negócio já rendia. É o retorno sobre o capital incremental.

No primeiro trimestre de 2026, o capital novo de cinco big techs rendia perto de 40% ao ano. O custo desse dinheiro, o que acionistas e credores exigem para financiá-lo, fica em torno de 8%. Enquanto a primeira taxa supera a segunda com folga, o caixa negativo, nas palavras de Mauboussin, "é perfeitamente aceitável".

A projeção dos analistas é que esse retorno caia para cerca de 23% até o terceiro trimestre de 2027, porque o investimento cresce mais rápido que a receita que ele gera. Continua acima do custo, com menos da metade da folga, e é essa queda que os investidores passaram a cobrar a cada balanço.

Quem vende IA mede, trimestre a trimestre, quanto o dinheiro novo rende além do que já rendia.

Do lado de quem compra, a conta quase não aparece

O gasto das empresas com IA dobrou em um ano, segundo pesquisa do BCG publicada em setembro, e mais de 80% dele está fora do orçamento de tecnologia, espalhado por marketing, atendimento e operações.

O retorno aparece pouco. Na pesquisa anual da McKinsey deste ano, cerca de 6% das empresas dizem ter ganho relevante no lucro operacional com IA. A maior parte das medições é declarada pelos próprios respondentes, sem comparar o processo com IA ao mesmo processo sem ela.

O que a conta decide

Na estratégia, quem mede escolhe o que escalar. O governo britânico testou durante três meses um assistente de IA de pacote de escritório, com um grupo de controle. Os servidores economizaram tempo, mas o tempo economizado não virou mais entrega, e o teste não encontrou ganho de produtividade. Com esse número, a decisão de estender as licenças deixou de depender da impressão de quem usou.

No capital, o risco é construir antes de medir. Na virada do século, as teles americanas investiram mais de US$ 500 bilhões em fibra, apostando que a demanda viria logo. Quando a conta chegou, só de 2% a 5% da fibra estava em uso, segundo o FDIC.

Com IA, o equivalente dentro da empresa é o piloto que funciona e vira gasto permanente, em licença e consumo, antes de alguém medir quanto ele rende além do processo antigo.

Na vantagem, ganha quem escala mais rápido o que funciona e desliga cedo o que não funciona. O DBS, maior banco de Singapura, compara cada uso de IA com um grupo de controle e calcula cerca de S$ 1 bilhão de valor em 2025.

Com a conta pronta, o banco decide com número o que ampliar e o que desligar, em vez de discutir por meses se o piloto deu certo.

A RÉGUA

Experimentar pede teto de custo. Escalar pede a conta que as big techs fazem.

Experimentar e escalar

Nas empresas que conheço, a IA ainda entra como linha de inovação, com custo controlado. Nesta fase, aplicar ao experimento a mesma régua de um investimento maduro inibe a inovação, porque poucos pilotos provam retorno em três meses.

A régua precisa aparecer na hora de escalar. Na minha experiência, projeto de tecnologia que apoia o negócio só escala com business case: o valor presente líquido do projeto, revisado pelo controller.

É a mesma conta das big techs, feita dentro de casa: quanto o dinheiro novo rende além do que o processo já rendia. O que costuma faltar é justamente a base, medida antes da IA e do mesmo jeito que será medida depois.

O que cada área leva à mesa

O financeiro traz o gasto de IA somado das áreas e a taxa mínima de retorno que a empresa usa para aprovar investimento.

As áreas de negócio trazem a base de cada processo antes da IA, como o custo por atendimento ou o tempo de ciclo.

A tecnologia traz o consumo. Os recursos de IA chegam ligados por padrão nos pacotes, e a cobrança por consumo cresce com o uso quando o piloto vira operação. Esse consumo aparece primeiro nos painéis de administração e nas faturas por uso, muitas vezes sem dono.

Cabe à tecnologia dar a cada projeto um centro de custo e um teto de consumo, registrar o indicador antes de ligar a IA e, nos projetos que pesam no orçamento, manter uma parte das equipes sem a IA, como comparação.

Compras e jurídico levam a conta para a renovação dos contratos. Os pacotes de escritório subiram de 9% a 25% em julho, com a IA como justificativa. Vivi uma renovação em que o fornecedor usou esse argumento. O aumento não veio, mas saí sem pedir o que podia: desconto pela IA que veio no pacote sem ter sido pedida. Com o retorno medido na mão, esse pedido teria número.

O que levar à mesa antes de escalar o próximo piloto

Separe experimentar de escalar. O piloto vive na linha de inovação, com teto de custo e prazo. Passar do piloto para a operação é uma decisão de investimento, com business case, valor presente líquido e o controller na mesa.

Meça contra a base. Antes de ligar a IA num processo que pesa no orçamento, registre quanto ele rende sem ela. Sem base, o retorno vira opinião, e a renovação do contrato vira negociação no escuro.

Some o gasto espalhado. Com a maior parte do gasto de IA fora da tecnologia, alguém precisa juntar licenças, consumo e projetos das áreas e mostrar o total ao financeiro, com teto por área.

Com esses três pontos, a pergunta da mesa deixa de ser "quanto custa a IA?" e passa a ser "quanto ela rendeu além do que teríamos sem ela?".

As perguntas que você leva para a sua mesa

1Qual processo da sua empresa já roda com IA e qual era o indicador dele antes?
Se você não tem esse número, ainda não tem como provar retorno.
2Qual projeto de IA você deixou sair do piloto este ano sem business case?
Se houver algum, ele já está no custo fixo sem ter passado pela régua.
3Quando o fornecedor justificar o próximo aumento com IA, você terá o número do que ela rendeu na sua empresa?
Se não tiver, quem define o preço é ele.

Bônus desta edição

A conta do piloto

O cálculo passo a passo, com um exemplo e um modelo para preencher antes de escalar um projeto de IA. São três páginas em PDF, para baixar aqui embaixo e levar à reunião.

ETR_Ed23_Bonus_A_conta_do_piloto.pdf

Bônus - A conta do piloto.pdf

3.03 MB • File

O que muda a partir daqui

A IA já entrou no orçamento de quase todas as áreas da empresa, como piloto, licença ou recurso ligado no pacote. O gasto cresce em cada uma delas, e o total só aparece quando alguém soma.

A mesa que separa o experimento da escala, e pede a conta medida contra a base antes de aprovar o próximo real, passa a decidir o que escalar com o rigor que o mercado já cobra das big techs.

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Se um par seu está fechando o orçamento de IA do ano que vem, esta leitura é para ele.

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