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Edição 21 · O Movimento · Outubro 2026

Executive Technology Review

por Felipe Avila

 

Na quinta-feira 1º de outubro, a ação da Accenture teve o maior ganho em um pregão da sua história. Abriu 22% acima do fechamento anterior e terminou o dia com alta perto de 16%.

Dezoito meses antes, a mesma ação havia começado uma queda de 45%. O motivo cabia em uma frase: a inteligência artificial faria o trabalho que a consultoria vende por hora.

A frase tinha irmãs. A IA acabaria com o programador. As empresas de serviços de tecnologia iriam encolher. Esta edição confere o que aconteceu com cada uma, e por que o efeito mais visível até agora recaiu sobre quem está começando a carreira.

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O fato

A

Accenture fechou o ano fiscal com US$ 84,5 bilhões em novos contratos, receita crescendo e margem subindo. A manchete falou em recorde, e o recorde existe, mas num lugar específico: nos clientes com contratos acima de US$ 100 milhões e nos serviços gerenciados. A consultoria tradicional, a que cobra por hora, ficou parada.

Na mesma teleconferência, a presidente-executiva admitiu preços menores em muitas áreas e disse que vai contratar menos em 2027, em parte por causa da IA.

A Accenture ganhou contrato e perdeu preço. As duas coisas no mesmo dia.

O que todos previram

Em 2024, o presidente da Nvidia disse que a missão da sua indústria era criar tecnologia para que ninguém precisasse programar. Em 2026, ele chamou o medo de perda de empregos de "complete nonsense" e disse que o número de engenheiros de software está aumentando.

Em 2025, o presidente da Anthropic previu que em seis meses a IA escreveria 90% do código. Um ano depois, no Google, três de cada quatro linhas novas saem da IA. E são revisadas por engenheiros que continuam na folha.

Em outubro de 2025, uma coluna da Reuters escreveu que as consultorias se aproximavam do seu "momento Kodak". A Kodak não teve o melhor pregão da história dez meses depois.

As previsões acertaram a direção e erraram o lugar. A IA faz mais do que se supunha. As profissões que ela ia extinguir continuam lá, com outro preço e outro contrato.

Onde o dinheiro apareceu

A explicação fácil é que a Accenture fatura porque vende produtividade. Mas produtividade do cliente derruba o preço do fornecedor, e a empresa acabou de confirmar a queda. O dinheiro veio de outros três lugares.

O primeiro é integração e operação. O cliente tem acesso aos mesmos modelos que a Accenture. O que ele compra é a ligação do modelo com um sistema de 20 anos, a operação em escala e alguém para responsabilizar quando falha. Modelo todo mundo tem. Quem opera, cobra.

O segundo é preço por resultado. A Deere instalou câmeras no pulverizador que aplicam herbicida só onde há planta daninha, e cobra US$ 5 por acre em que a máquina decidiu não pulverizar. A receita ainda é pequena. O modelo é o que importa: a Deere passou a ser paga pelo que o cliente deixou de gastar.

O terceiro é vender a pá para quem cava. A Caterpillar cresceu 32% em geração de energia em 2025, quase tudo para data centers. A empresa não usa IA para ganhar esse dinheiro. Ela vende para quem usa, e vai ganhar enquanto durar a corrida.

Nenhum dos três é produtividade. Os três são reinvenção de quem é pago, por quê e quanto.

A conta chegou no início de carreira

Se a IA não acabou com o programador nem com a consultoria, onde ela já aparece? Na porta de entrada.

O emprego de jovens em funções expostas à IA caiu nos Estados Unidos e no Brasil. Caiu por falta de contratação, não por demissão. No Brasil, o saldo de vagas formais de desenvolvimento de software, que passava de 50 mil em 2021, ficou em algumas centenas nos primeiros meses de 2026.

Quem já está dentro continua empregado. Quem está chegando encontra a porta estreita.

A leitura desta publicação é outra que a do alarme. O trabalho de entrada, como existe hoje, é executar tarefa delimitada sob supervisão até ganhar autonomia. Essa é a descrição exata do que a IA faz melhor. O que sumiu foi essa tarefa. O que ainda não existe é o formato novo da entrada.

Quem começa em 2026 chega mais adaptado, porque chega sem compromisso com o passado das ferramentas. O sênior também domina a IA; o que ele carrega é o peso de tudo que aprendeu a fazer de outro jeito. Isso muda o que uma empresa deveria esperar de um primeiro emprego.

O que se perde na transição é a formação por repetição supervisionada, e esse custo não aparece em 2027. Aparece em 2030, quando faltar quem passou por ela.

É adaptação, e não extinção. A dor atual é a do começo: a tarefa antiga sumiu antes de a tarefa nova ganhar nome, cargo e trilha.

ADAPTAÇÃO, E NÃO EXTINÇÃO

Quem chega em 2026 chega mais adaptado, porque chega sem compromisso com o passado. O sênior domina a mesma ferramenta, e carrega o peso de tudo que aprendeu a fazer de outro jeito.

O precedente

Nos anos 1980, a planilha eletrônica chegou com a mesma promessa de acabar com uma profissão. Os Estados Unidos perderam algumas centenas de milhares de empregos de escriturário contábil nas décadas seguintes e ganharam mais do que isso em contadores e analistas.

O trabalho de lançar número em coluna sumiu. O de perguntar "e se" a uma coluna de números nasceu, e pagava melhor. A formação mudou junto: quem aprendia lançando passou a aprender modelando.

A pergunta a acompanhar deixa de ser quantas vagas de entrada sumiram e passa a ser quantas foram redesenhadas.

O que medir

Receita por funcionário virou o indicador favorito para dizer que a IA funciona, e a Accenture o usou na teleconferência. É bom, e engana: sobe também com terceirização, inflação, câmbio e aquisição. Lido sozinho, confirma qualquer tese.

Três complementos. Quanto da receita está indexada a resultado, e não a hora. Quanto da receita vem de oferta que não existia há dois anos e só existe por causa da IA. E quantos meses quem entra leva para operar sem supervisão, comparando 2024 e 2026.

Os dois primeiros dizem se a IA virou negócio. O terceiro diz se a empresa está adaptando ou só cortando.

As perguntas que você leva para a sua mesa

São as que circulam nos almoços de executivos este ano, e que em geral ficam sem resposta boa.

1Vocês ainda estão contratando júnior?
Se a resposta for "congelamos até entender a IA", a empresa está terceirizando para o mercado uma decisão que é dela. Quem vai formar o sênior de 2030?
2Quanto vocês já colocaram em IA, e o que voltou?
Se o que voltou foi só hora economizada, o dinheiro ainda está do lado do custo. A pergunta seguinte é a que ninguém faz: que receita existe hoje porque a IA existe?
3O fornecedor de tecnologia cobrou mais ou menos de vocês este ano?
Se cobrou menos pela mesma coisa, a produtividade dele virou desconto seu. Se cobrou mais por algo novo, ele se reinventou antes de você.
4O conselho já perguntou sobre IA? O que você respondeu?
Se a resposta foi um indicador de produtividade, ela convence por um trimestre. Receita por funcionário sobe por muitos motivos. O conselho vai pedir o segundo número.

O que muda a partir daqui

Tenho acompanhado as mesmas notícias que você: a queda da consultoria, o fim do programador, a geração que não encontra o primeiro emprego. Escolhi gastar menos tempo no alarme e mais na solução para a companhia, porque o alarme já tem quem o escreva.

A Accenture subiu 16% num dia e ainda vale menos do que em janeiro. As duas coisas são verdadeiras. A IA já paga, e ainda não paga do jeito que a planilha de 2024 previa.

Se esta leitura ajudou, ou se faltou algo, responda a este email e me conte. É o retorno de vocês que me mantém escrevendo.

Se você conhece alguém que ainda mede IA só por produtividade, esta leitura talvez ajude.

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