Edição 18 · Análise · Setembro 2026 Executive Technology Review por Felipe Avila |
Aprovar projeto de inteligência artificial ficou mais difícil ao longo de 2026. Parte da explicação é a dificuldade de demonstrar retorno. A outra parte é que os conselhos passaram a ler os mesmos estudos de universidades e de grandes consultorias que circulam sobre taxa de fracasso em IA, e chegam à mesa com a objeção pronta.
Do outro lado, tenho visto pressa. Empresas entrando em projeto sem antes estudar o que o próprio conselho de administração cobra da companhia, ano após ano.
As duas coisas se encontram no mesmo lugar. Piloto que funcionou, com resultado medido, que não é aprovado para escala porque não conversa com a estratégia dos acionistas. O valor existia e não foi capturado. Reconhecer o tipo de conselho é a primeira etapa para que isso pare de acontecer.
| A | Pfizer paga 6,26% de dividendo e aumentou a distribuição por dezesseis anos seguidos. A Eli Lilly paga 0,57%. |
As duas são grandes farmacêuticas americanas, as duas assinaram acordos de descoberta de moléculas com laboratórios de inteligência artificial, e as duas estão certas.
O que separa uma da outra é o mandato que cada conselho de administração assumiu com o mercado. Dezesseis anos ininterruptos de aumento de dividendo são um compromisso de caixa que precede qualquer discussão de orçamento. Distribuir 0,57% deixa o caixa livre para reinvestimento.
Esse mandato, e não o setor, decide o que a mesa aceita ouvir sobre inteligência artificial. Duas empresas vizinhas na mesma indústria podem ter conselhos que cobram coisas opostas.
Duas decisões, duas línguas
Quase tudo que foi aprovado em inteligência artificial nas empresas nos últimos três anos coube na alçada de quem propôs. Piloto de atendimento, copiloto para o time de engenharia, prova de conceito em um processo.
Ticket pequeno, decisão técnica, avaliação técnica. Funcionou ou não funcionou.
Escalar é outra categoria de decisão. Exige capital, prazo e uma linha de orçamento que disputa com a distribuição de resultado e com os demais investimentos da companhia.
Ela sobe para o conselho, e o critério muda com ela. A avaliação deixa de ser se a tecnologia funcionou e passa a ser o que a empresa comprou com aquele dinheiro.
A DISTÂNCIA JÁ ESTÁ MEDIDA No levantamento global da McKinsey de agosto de 2026, 44% das organizações dizem escalar inteligência artificial por toda a empresa. E 37% relatam algum impacto em EBIT. |
Entre um número e outro estão as empresas que escalaram tecnicamente e ainda não demonstraram retorno no resultado.
A pesquisa de campo da Bain de abril de 2026 mostra como esse intervalo se financia. Entre as grandes empresas, 44% disseram estar custeando a nova rodada de gastos com IA a partir da economia da rodada anterior, economia que ainda não apareceu no resultado.
O resumo da própria consultoria tem cinco palavras: "The technology worked. The value didn't arrive."
Quem conduz IA dentro da empresa responde pelos dois números. À medida que a tecnologia amadurece, o conselho cobra o segundo, e a competência exigida de quem conduz o tema passa a ser a de traduzir tecnologia em alocação de capital.
O mesmo projeto, três defesas
Qualquer projeto de IA pode ser defendido de três formas: receita nova, custo menor, risco menor.
A escolha parece retórica e não é. A promessa feita na aprovação vira a régua pela qual o projeto será medido nos anos seguintes, e trocá-la depois custa mais caro do que escolher errado no começo.
A escolha também não pertence a quem leva o projeto. Ela pertence ao conselho, que definiu o mandato da companhia muito antes de a IA entrar na pauta.
E esse mandato é legível em fonte pública: quanto do lucro sai pela porta todo ano, qual número o mercado usa para precificar a empresa, e qual indicador o diretor financeiro apresenta a cada divulgação de resultados.
O conselho que compra crescimento
Aceita e recusa Aceita demanda contratada, com contraparte, prazo e valor. Recusa promessa de economia de custo. |
Você o reconhece pelo payout perto de zero e por um múltiplo apoiado em crescimento de receita. Em setembro de 2026, o setor de tecnologia americano pagava 0,57% de dividendo médio, semicondutores 0,50%, software de aplicação 0,53% e as geradoras independentes de energia 0,77%, estas últimas puxadas para esse grupo pelos contratos de fornecimento a data centers.
Um falso positivo vale registrar. Engenharia e construção pagam 0,41% e não pertencem a esse grupo. O caixa ali fica retido para atravessar ciclo de crédito e financiar capital de giro, e o conselho cobra execução de obra e disciplina de margem.
Em julho de 2026, Amazon e Meta elevaram a projeção de investimento em infraestrutura na mesma semana, e o mercado respondeu em direções opostas.
A Amazon levou o número para US$ 220 bilhões. Gasto dessa ordem costuma derrubar a ação, porque consome caixa que poderia ser distribuído.
A ação subiu mais de 9%. No mesmo anúncio, a empresa reportou a operação de nuvem crescendo 36,7%, o maior avanço em dezoito trimestres, e declarou que a maior parte da capacidade de 2027 já estava contratada por clientes.
A Meta elevou o próprio investimento e foi perguntada sobre o ano seguinte. A resposta da diretora financeira Susan Li foi: "We aren't providing a specific outlook for 2027 capex at this time."
A ação caiu 11% na manhã seguinte.
O QUE SEPAROU AS DUAS A Amazon apresentou a prova de que a capacidade já tinha comprador. A Meta pediu a mesma paciência ao mercado sem apresentar essa prova. |
Projeção de retorno é a defesa mais fraca nessa mesa, porque é opinião de quem propõe. Demanda contratada é a mais forte, porque a obrigação é de um terceiro e pode ser auditada.
Como se defende um projeto de IA nesse conselho. A demanda entra antes do investimento. Leve contrato assinado, volume já vendido ou cliente pagando pelo piloto, com nome, prazo e valor, e apresente o gasto como consequência dessa demanda. Fora do mundo dos hyperscalers, o equivalente da capacidade contratada é o pipeline comercial com valor e o contrato de cliente com data.
O conselho que compra previsibilidade de caixa
Aceita e recusa Aceita melhora do indicador que a empresa já reporta ao mercado. Recusa promessa de margem permanente. |
Você o reconhece pela distribuição estável e por uma série de aumentos que ninguém interrompe. É o maior dos três grupos. Em setembro de 2026, bancos diversificados pagavam 2,45% de dividendo médio, bancos regionais 2,93%, varejo de consumo básico 2,52%, farmacêuticas de marca 2,28%, utilities diversificadas 4,07%, energia 4,12% e o setor imobiliário 3,90%.
Esse conselho já viu ganho de tecnologia virar desconto para o cliente. Quando todos os concorrentes adotam a mesma ferramenta, a economia obtida é devolvida no preço, e a margem retorna ao patamar anterior. Por isso a promessa de margem maior em caráter permanente encontra resistência ali.
Jamie Dimon, do JPMorgan, formulou o ponto na divulgação do segundo trimestre de 2026: "You don't uniquely benefit from AI."
O argumento seguinte é o que sustenta a frase: "If that were true, our margins would be 80% today because of computerization over the last 20 years."
O CFA Institute registrou o mesmo mecanismo em maio de 2026. Expansão de margem logo após automação costuma refletir custo adiado, e não ganho permanente de eficiência.
O que passa nessa mesa é mais modesto. O Bank of America amarrou o programa de IA ao índice de eficiência do banco, que saiu de 63% para 59% em um ano. O diretor financeiro Alastair Borthwick define esse indicador como "a forma mais simples de pensar quanto custa gerar um dólar de receita".
Como se defende um projeto de IA nesse conselho. Escreva o projeto no indicador que a empresa já publica, com o método de medição combinado antes do início e com o ganho declarado como defesa da posição atual. Um ponto de índice de eficiência, medido do mesmo jeito que o release mede, é mais aprovável que uma projeção de margem que o conselho não consegue conferir sozinho.
O conselho que compra validação externa
Aceita e recusa Aceita validação assinada por uma contraparte que fez diligência. Recusa promessa de lucro no horizonte visível. |
Você o reconhece pela ausência de dividendo, por uma receita pequena diante do valor da empresa, e por um conselho formado em boa parte por quem vai precificar a próxima rodada. Em setembro de 2026, a biotecnologia americana pagava 0,08% de dividendo médio, o menor de todos os setores.
A mesma lógica governa a empresa fechada com capital de risco e a recém-listada que ainda não dá lucro. A Recursion vale cerca de US$ 1,7 bilhão com receita trimestral de US$ 5,2 milhões. A Isomorphic Labs levantou US$ 2,1 bilhões em maio de 2026 sem divulgar receita. A Insilico Medicine abriu capital em Hong Kong em dezembro de 2025 com US$ 56 milhões de receita anual e valor de mercado próximo de US$ 2,1 bilhões.
O que sustenta números assim é contrato assinado por um comprador grande que fez a própria diligência técnica. A Novartis pagou US$ 37,5 milhões de entrada à Isomorphic, com até US$ 1,2 bilhão condicionado a marcos. A Takeda fechou até US$ 1,7 bilhão com a Iambic em fevereiro de 2026.
O mesmo contrato tem leitura dupla. Para o conselho da farmacêutica, que protege distribuição, ele é uma opção barata sobre um resultado incerto: pouco capital na entrada, o grosso condicionado a marco. Para o conselho da startup, ele é o preço que um terceiro qualificado aceitou pagar pela tese.
Como se defende um projeto de IA nesse conselho. Traga o julgamento de um terceiro que fez diligência e colocou algo em risco: cliente que pagou pelo piloto, parceiro que assinou marco, investidor que precificou a tese. Demonstração técnica interna pesa pouco ali, porque esse conselho já parte do princípio de que a tecnologia funciona.
As perguntas que você leva para a sua mesa
| 1 | Quantos pilotos nossos deram resultado técnico comprovado e não foram escalados, e em quantos deles a causa foi desalinhamento com o que o conselho cobra da companhia? Esse número é o valor que a empresa produziu e deixou na mesa. | | 2 | O mandato do nosso conselho mudou nos últimos três anos, de crescimento para caixa ou de caixa para crescimento, e o nosso portfólio de IA acompanhou essa mudança? Mudança de mandato costuma ser anunciada em fato relevante e raramente chega ao comitê de tecnologia. | | 3 | O nosso portfólio de IA inteiro está escrito em uma das três defesas, ou cada projeto foi aprovado com a defesa que era conveniente naquele mês? Portfólio escrito em três defesas ao mesmo tempo não tem tese, e o conselho percebe isso antes do comitê. | | 4 | Um concorrente com o mesmo orçamento e um conselho de mandato diferente investiria em quê, e o que essa diferença nos custa em três anos? O mandato do acionista dele define a fronteira competitiva que você vai enfrentar. |
Qual é a sua opinião
A língua do piloto e a língua do capital convivem na mesma empresa, e quem conduz inteligência artificial precisa das duas. Qual delas é falada no seu conselho, e o que muda na defesa do seu maior projeto de IA depois de identificar isso? Respostas a este email são lidas e respondidas uma a uma.
Se você conhece alguém que defende projetos de inteligência artificial diante de um conselho, encaminhe esta edição. É assim que ela chega a quem deveria estar lendo. |
Todos os números citados têm fonte primária ou estudo nomeado. Dividend yields por empresa, por setor e por indústria vêm de StockAnalysis, MarketBeat e Finviz, com captura de setembro de 2026. Os dados de Amazon e Meta vêm das divulgações do segundo trimestre de 2026 e das transcrições das teleconferências. As falas de Jamie Dimon e de Alastair Borthwick vêm das divulgações do segundo trimestre de 2026 de JPMorgan e Bank of America. O levantamento da McKinsey ouviu 1.719 respondentes em 97 países, em campo entre 4 de maio e 8 de junho de 2026. A pesquisa de campo da Bain ouviu 951 empresas com receita acima de US$ 100 milhões, em abril de 2026. A observação sobre custo adiado é de Pankaj Mhatre, no CFA Institute, em maio de 2026. Os dados de Recursion vêm do release do terceiro trimestre de 2025 e de CompaniesMarketCap; a rodada da Isomorphic Labs e o acordo com a Novartis foram divulgados pela própria Isomorphic; a abertura de capital da Insilico Medicine foi noticiada pela Forbes; o acordo entre Takeda e Iambic foi noticiado pela Reuters. As pesquisas de consultoria citadas são levantamentos autodeclarados, sem revisão por pares. |
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