Edição 12 · Agosto 2026

Executive Technology Review

por Felipe Avila

 

Chego à última semana de férias, e esta ainda é uma edição curta. O ritmo de acompanhamento de notícias por aqui está mais limitado, mas uma coisa vem chamando atenção mesmo de longe: a divulgação de resultados das empresas ligadas a IA. Com a Amazon não foi diferente. Uma linha do balanço dela muda o jeito de ler qualquer resultado nesta era, inclusive os que chegam à sua mesa.

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Na quinta-feira, a Amazon reportou o maior lucro trimestral da história dela: US$ 62,6 bilhões, mais que o triplo de um ano antes, no primeiro trimestre acima de US$ 200 bilhões de receita.

A linha que chamou atenção está na primeira página do release: US$ 53,4 bilhões desse lucro são ganho não operacional, vindo principalmente da reprecificação da participação da empresa no laboratório de IA Anthropic. Dois terços do lucro antes de impostos não vieram de vender coisa alguma.

Vale entender o mecanismo, porque ele vai se repetir pelos próximos anos. Quando uma empresa fechada levanta uma rodada de investimento a um valor maior, quem já tinha participação remarca na contabilidade o que carrega, e o ganho vai para o resultado como lucro.

Nenhum dinheiro trocou de mãos nessa linha; ninguém pagou por aquele valor ainda. É lucro de estimativa, legítimo e declarado, com a certeza de uma estimativa.

Na mesma página do release, o extremo oposto: o caixa livre dos últimos doze meses virou negativo em US$ 7,6 bilhões, puxado por US$ 66 bilhões a mais em compras de equipamentos, "principalmente investimentos em inteligência artificial", nas palavras da própria empresa.

Na teleconferência, o plano de investimento do ano subiu para US$ 220 bilhões, com o custo da memória entre as razões citadas.

E aqui está a parte mais instrutiva da semana. A ação subiu cerca de 9% no dia seguinte, e a cobertura inteira atribuiu a alta a um número que não era o lucro: a nuvem, que cresceu 37%, o ritmo mais forte em quatro anos e meio, acima do que os analistas projetavam.

O lucro recorde, a leitura profissional tratou como item a excluir, seguindo a classificação da própria empresa: ganho único, fora da operação. Na prática, dois terços da manchete foram descartados no primeiro parágrafo, e o que restou foi precificado.

Esse é o método que interessa. O balanço da era da IA mistura três naturezas numa mesma página, cada uma com um grau de certeza diferente. Operação: dinheiro que entrou, certeza de extrato. Aposta: valor que alguém estimou, certeza de estimativa. Construção: dinheiro que saiu para gerar os dois primeiros, certeza absoluta, só que na coluna de saída.

Nada disso é irregular, e a Amazon declara as três com clareza incomum. O trabalho que mudou é o de quem lê: separar as naturezas antes de somar.

Agora o espelho. A maioria das empresas no Brasil não publica balanço, mas produz a mesma mistura em outro documento: o caso de negócio. O projeto de IA que chega para aprovação na sua mesa tem as mesmas três naturezas, quase sempre somadas.

O ganho operacional medido. O "valor estratégico" que ninguém precificou, que é a marcação da vida corporativa e frequentemente a maior parcela do retorno prometido. E o custo de construção, não raro alocado em outro centro de custo, onde não desconta o retorno de ninguém.

Na prática, a separação é um exercício de dez minutos. Pegue o retorno prometido do seu principal projeto de IA e reescreva em três linhas.

O que já entrou, em receita ou custo evitado, com o número do último trimestre. O que é valor futuro que ninguém pagou ainda. E o custo total de construção, incluindo a parte alocada em outra área.

O projeto que continua bom depois dessa conta é bom. O que só fica bom com as três linhas somadas vai passar, mais cedo ou mais tarde, pelo que a Amazon passou na quinta-feira: alguém vai descartar a estimativa, cobrar a construção e pagar só pela operação.

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Se você compartilha conhecimento e conhece alguém que pensa tecnologia como estratégia, alocação de capital e vantagem competitiva, encaminhe esta edição. É assim que ela chega a quem deveria estar lendo.

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