Edição 20 · Análise

Executive Technology Review

por Felipe Avila

 
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udo o que OpenAI e Anthropic fizeram até aqui foi calibrado para um objetivo: chegar ao IPO valendo o máximo possível. A narrativa de segurança, a queima de dezenas de bilhões por ano, a corrida de capacidades, os contratos com governos. Cada movimento serviu a construir o valuation da abertura de capital.

Esse objetivo está com prazo para acabar. E quando ele acabar, outro toma o lugar: entregar resultado a cada trimestre para um acionista. Quero pensar com você no que essa troca de régua faz com a estratégia dessas empresas, e com o produto que talvez você já use.

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Não é a primeira vez que uma empresa passa a responder ao mercado, e já se estudou bem o que acontece quando isso ocorre. Os próximos dois parágrafos trazem dados sobre como os CFOs de fato decidem, e é o que sustenta todo o resto desta conversa.

Em 2005, três pesquisadores, John Graham, Campbell Harvey e Shiva Rajgopal, entrevistaram mais de 400 executivos financeiros de empresas listadas para entender o que dirige as decisões deles. Um em cada quatro admitiu que atrasaria um projeto de valor real, com retorno positivo, para não perder a meta de resultado do trimestre. E 78% disseram que abririam mão de valor econômico de longo prazo para entregar um número mais previsível ao mercado. Isso é decisão de negócio destruindo valor de verdade, para agradar ao relógio.

O estudo é uma pesquisa de intenção declarada, feita nos Estados Unidos há duas décadas, e vale ler com essa ressalva. Mas o que ele mede não envelheceu: abrir capital não muda a ética de quem decide. Muda o horizonte de tempo. O que era decidido pensando em cinco anos passa a ser decidido pensando nos próximos doze meses.

A tese

Aplique esse horizonte a um laboratório de IA e veja o que acontece com o produto que você usa.

Segurança e pesquisa de longo prazo produzem uma coisa que o mercado não sabe premiar: o que elas entregam de mais valioso é invisível. Uma catástrofe evitada não aparece em linha de receita. Um modelo que não foi lançado porque era arriscado demais não vira trimestre. Quando o horizonte é de cinco anos, esses gastos se justificam como seguro. Encurte para doze meses e eles viram uma linha de despesa que precisa competir, a cada revisão de orçamento, com mais GPUs, mais vendedores, mais features que dão retorno rápido.

O que dá dinheiro ganha o roadmap. O que protege contra um risco raro e grave perde a disputa por budget. Não porque alguém virou vilão, mas porque a régua mudou. O produto de IA que você adota hoje foi feito por uma empresa que ainda podia pôr qualidade e cautela acima de margem. A empresa que vai manter esse produto amanhã responde a um acionista que quer o número subindo.

A virada

Abrir capital não muda a ética de quem decide. Muda o horizonte de tempo.

Os sinais que já apareceram

E isso já começou, antes mesmo do IPO.

A OpenAI passou anos tratando publicidade dentro do ChatGPT como último recurso, algo que Sam Altman dizia querer evitar o máximo possível. Em fevereiro de 2026 lançou uma plataforma de anúncios self-service, com meta pública de bilhões em receita. O produto que prometia responder só pelo que é útil passou a ter um segundo dono da atenção do usuário.

Na segurança, o time de alinhamento de longo prazo da OpenAI foi dissolvido, e uma sequência de pesquisadores da área saiu citando desacordo com as prioridades. Na Anthropic, que nasceu com a bandeira de segurança em primeiro lugar, vieram relatos internos de pressão para deixar de lado justamente o que a empresa dizia defender, enquanto ela fechava contratos cada vez maiores com governos e bancos.

Nenhum desses movimentos é escândalo. São respostas racionais à pressão que já está agindo. E, de novo, o IPO ainda nem aconteceu.

Por que nenhum consegue frear

Se os fundadores sabem do risco, por que não desaceleram por conta própria?

Porque estão presos num dilema clássico da teoria dos jogos. Se um laboratório resolve sozinho ir mais devagar, lançar menos, gastar mais em cautela, ele perde valuation, contrato e relevância para o concorrente que não freou. O que seria bom para o sistema inteiro, todos desacelerarem juntos, é ruim para qualquer um que faça isso sozinho. Então ninguém faz. Depois do IPO a trava aperta, porque ficar para trás deixa de ser preocupação abstrata e vira queda no preço da ação, cobrada a cada três meses.

Tem uma frase que resume bem: o primeiro a atravessar a parede sempre se machuca. Foi o que a OpenAI fez com os anúncios, levando a crítica na frente enquanto os concorrentes assistem para depois seguir o mesmo caminho com menos desgaste. É assim que uma indústria inteira anda na mesma direção sem que ninguém, sozinho, tenha decidido andar.

Três cenários, e não os únicos

Se a estrutura empurra para esse lado, onde ela pode parar? Vejo três desfechos, e não acho que sejam os únicos. São três jeitos de a mesma pressão se resolver.

O primeiro é virar utilidade de infraestrutura. Os laboratórios acabam como camadas de compute e modelo grudadas em Microsoft, Amazon e Google, com margem moderada mas estável, sob contratos longos. A inovação de ponta migra para quem constrói em cima deles. Vira um negócio de utilidade, previsível, e a promessa de mudar o mundo dá lugar à de bater a meta do trimestre.

O segundo é a corrida armada. As duas abrem capital valendo fortunas, seguem queimando caixa, e a pressão por crescimento empurra capacidades cada vez mais agressivas e mais integradas a sistemas críticos. A segurança vira discurso de marketing, e deixa de ser o princípio que organiza a empresa.

O terceiro é a queda feia. Basta um choque grande, um acidente de IA ou um tombo de valuation, para o mercado reprecificar tudo de uma vez. A regulação aperta de repente, e parte dos incentivos volta a favorecer cautela, laboratórios menores e código aberto. É o desfecho mais doloroso, e talvez o único que recoloca a segurança no centro, pela via mais cara.

Sua vez

A régua que mediu esses laboratórios até agora está sendo trocada. Dos três cenários, em qual você aposta? Responde aqui que eu leio todas.

Se você conhece alguém que pensa tecnologia como decisão, e não como ferramenta, encaminhe esta edição. É assim que ela chega em quem deveria estar lendo.

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